quarta-feira, 13 de outubro de 2010

No fundo do poço da salvação dos mineiros chilenos

De fato, a salvação dos mineiros chilenos é uma demonstração emocionante do que são capazes os seres humanos quando se juntam para fazer algo que preste. Combinando alta tecnologia (até da Nasa), solidariedade, perseverança e apoio de mídia, os trabalhadores soterrados estão sendo salvos da morte, um a um. Pena que todas essas qualidades virtuosas não tenham sido mobilizadas antes pelos proprietários da mina de cobre San José, controlada pela Compañía Minera San Esteban Primera Sociedad Anónima. Entre 2004 e 2010, a companhia recebeu 42 multas por quebra dos regulamentos de segurança.  Em 2007, a mina foi fechada em razão de um processo movido pela família de um mineiro morto em serviço. Mas foi reaberta em 2008, apesar de ter continuado a infringir as normas, segundo o senador chileno Baldo Prokurica, integrante de uma comissão parlamentar sobre o assunto. E, segundo a AFP, em 6 de setembro, depois da última tragédia, um tribunal chileno decretou intervenção na empresa que (surpresa!) pediu falência.  "A companhia que represento está num estado tal que não pode enfrentar seus compromissos mais imediatos, tendo já cessado o pagamento de uma obrigação mercantil", diz o documento de falência, assinado pelo representante Alejandro Bohn.

Certamente é preciso estar, como diz o samba, em estado de grande necessidade para aguentar o trabalho insano a 700 metros de profundidade a serviço de uma empresa que não demonstra o menor respeito às suas obrigações sociais e trabalhistas. E recorre ao Estado para ganhar cobertura e livrar a cara dos seus proprietários.

Pior, todas essas informações, que mal aparecem na imprensa "livre", podem ser encontradas de graça na Internet.   


 

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O princípio do samba


 "No princípio era a roda - um passeio pela história do samba" é o show que rola no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, com Nei Lopes e o grupo GaloCantô. Cada apresentação, além do mestre Nei e do excelente Galo, traz diversas presenças de sambistas militantes. Começou em julho, termina em dezembro. Não costumo fazer propaganda (modesta, no meu caso) de espetáculos, mas esta é pessoal, pois trata-se de um trabalho baseado em livro do saudoso Roberto Moura, com quem tive o prazer de trabalhar na TVE (hoje TV Brasil) e em produção de carnaval para outra emissora de TV.
A entrada é R$ 6, inteira e R$ 3, meia. Mais informação na página do CCBB -  bb.com.br/cultura.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mais uma proposta corporativa para "regular" a imprensa

De repente, não mais que de repente, os donos de jornais decidiram debater um "código de ética" para a imprensa, em encontro promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), entidade que reune os empresários do setor. "Cautela" parece ter sido a palavra-chave do debate, expressando todo o receio, para não dizer verdadeiro pavor, que a "grande" imprensa tem de uma participação ativa da sociedade no acompanhamento e questionamento das suas atividades. Falou-se de "autorregulamentação", mas do quê e de quem? A resposta é clara: os próprios empresários pretendem estabelecer sua regulamentação, à margem dos interesses da sociedade, da categoria dos jornalistas (que já dispõe de um código de ética discutido em encontro nacionais) e da população em geral.  Um desses empresários, segundo a cobertura do debate publicada na página da ANJ, evidenciou o objetivo final da proposta: "Vamos fazer logo antes que outros o façam".  É mais uma proposta corporativa para não dar em nada, para fechar a discussão.  Quem quiser pode ver o que publiquei aqui no blog sobre o assunto, em janeiro, maio e junho deste ano, demonstrando a necessidade de um organismo de mediação entre a sociedade e a imprensa, com maioria de representantes de diversas áreas, inclusive jornalistas,  e minoria do governo e dos próprios empresários. Não se trata de um clube de discussões filosóficas ou de qualquer tentativa de criar mais uma mordaça (que já existem de sobra). Trata-se de permitir que qualquer cidadão ou grupo supostamente prejudicado por notícias mal elaboradas ou infundadas possa reivindicar seu direito à reparação (em termos jornalísticos, não em dinheiro - esta fica para a Justiça), mediante acordo entre as partes.
Pena que a Associação Brasileira de Imprensa, a venerável ABI, fuja do assunto.

     

quarta-feira, 14 de julho de 2010

JB

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Acabou-se o JB. Nelson Tanure fica impune. Capitalismo bão.

Paulo Moura

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Paulo Moura, que eu vi tocar pela primeira vez ao vivo num baile do Circo Voador. Brasileiro da melhor qualidade.

Um abraço saudoso, Paulo.

domingo, 11 de julho de 2010

O homem que não ama as mulheres

A história de sangue e terror que envolve o caso Bruno e as matérias sobre a violência contra as mulheres no Brasil podem ser associadas a um romance chamado "Os homens que não amavam as mulheres", primeiro volume de uma trilogia escrita pelo sueco Stieg Larsson. Logo de saída duas informações que derrubam o mito do paraíso sueco: perto de 20% das mulheres suecas já foram ameaçadas de alguma forma por homens; e 46% sofreram violência masculina. Lá como cá, ainda é longo o caminho para acabar com essa prática covarde (não por uma suposta fragilidade feminina, mas pela demonstração de incapacidade de tratar com a diferença).

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dois pitacos sobre a imprensa, Dunga, coisa e tal

Pitaco 1: Mais uma prova de que sentença judicial (ou censura judicial) não ajuda a melhorar a imprensa: ficou ridícula a publicação no Globo da sentença contra o jornalista Luiz Garcia, condenando-o a pagamento de indenização por ter criticado um certo juiz (questionar juízes é perigoso no Brasil do século 21) e à publicação da decisão pelo jornal. A sentença começa na página de opinião e segue por quase toda uma página adiante. Quem lê aquilo? Certamente só os interessados e juristas, advogados, coisa e tal. Uma maçaroca que só serve para chatear os leitores, ainda mais porque tudo indica tratar-se de matéria de anos atrás. Supondo-se que o juiz esteja certo, caberia uma reparação em linguagem jornalística, explicando os antecedentes e a conclusão do caso. É por isso que mantenho a proposta de criação de um organismo civil para mediar casos semelhantes (em se tratando de juízes, mais ainda, para contornar o corporativismo), da forma como expus em posts anteriores neste blog (4/1 e 31/5/2010). Mas a "grande" imprensa parece não gostar da idéia. Aliás, não gosta de idéia nenhuma que a tire do Olimpo em que lhe agrada viver.

Pitaco 2 - Cacá parece ter virado o avatar do Dunga em matéria de entrevistas à imprensa. Provocação de jornalista se responde com informação e serenidade. Senão, o que vira notícia é o destempero, a forma raivosa como essas figuras reagem à pressão da mídia. Questionar é obrigação profissional dos repórteres. Não é "assunto pessoal". Nem religioso.